Férias Curtas

Claudinha e eu nos conhecemos por acaso em um ambiente de trabalho. Bem, nem tão acaso assim. Claudinha trabalha numa empresa de construção e eu lá estive para apresentar-lhes um projeto.

Velhas Amigas
Velhas Amigas (Google Images)

Não levei a concorrência, mas ganhei uma amiga e tanto. Só que ainda não sabia disso, porque voltamos a nos ver a não mais do que dois anos, dois anos e meio atrás. E foi, realmente então, que me apaixonei por ela.

Seu tipo miúdo em nada traduz sua grandeza. Esperta, antenada e cheia das boas ideias, cativou-me pelo seu entusiasmo. Só não gosta de trabalhar na empresa em que trabalha. Eu também não gostaria. Melhor dizendo, eu não suportaria.

Os três sócios, simplesmente não se entendem a não ser nas canalhices que cometem cada qual em sua especialidade. Um tem pós-graduação em Mentiras e Sedução. Outro, exímio Mal Pagador. O terceiro e menos cruel tem título honorífico em Traição e Ladroagem.

Como você consegue suportar esse tipo de pessoa, ambiente...? Ah, minha amiga, quando é preciso, a gente suporta o que jamais imaginou! É a necessidade. A gente arranja forças. Uh, se arranja! Quem disse que viver é fácil? Principalmente para quem já chegou à nossa idade e não encontra quem nos pague pela experiência que temos. Se precisasse, você aguentaria.

Ao menos, ela se diverte ao contar em tom de confidência, eles também enganam uns aos outros e a empresa vai bem por conta e risco dos empregados. Eles vivem aparecendo na tevê. Lindos, elegantes, perfumados. Bem, não sei se perfumados também. Empreendedores ‘gente boa’. Não necessariamente fina. O pior de tudo, continua, é que eles atrasam os salários, se é que pode chamar salário o que não consta da folha de pagamento.

Claudinha vive na insegurança. Nunca sabe se, quando e quanto vai receber, porque eles também roubam dos funcionários. Um dia eu recebo, afirma, quando alguém deles está mais calmo ou mais saciado em suas fomes de sexo, coca e rock’n roll. Aproveito alguma brecha de boa vontade e saio com o meu. A cada três ou quatro meses eu me sujeito a não ter como pagar meu aluguel.

Imagine que o fulano já me disse que não dá em cima de mim porque sou velha. Não porque ‘não faça seu tipo’, mas porque já passei da idade que acende seus apetites. E eu tenho que ouvir isso! Ouvir e ficar quieta.

Como assim, ouvir e ficar quieta?!? Porque não consigo trabalho em outro lugar. Você, com a sua formação...? Pois é, nosso país é assim. Quem não fez seu pé de meia, quando chega a nossa idade está ferrado. Não é trabalho escravo porque permaneço por livre e espancada vontade, mas é de doer. E vai chegando um ponto em que a gente fica doente. Eu fiquei. Você não?

Concordo que também engulo meus sapos boi. A idade mais velha é porta aberta para a negação das nossas qualidades, que não são poucas, diga-se de passagem. Pergunto-me de quais espécies batráquias tenho me alimentado ultimamente e concordo haja sapo! Tem de montão, para todos os desgostos.

Chega a amiga de Claudinha, de quem já ouvira falar. Mulher grandona, espirituosa, um pouco sem noção, o que torna tudo menos calmo, porém bem mais divertido. Apresentações feitas às pressas na rodoviária, embarcamos como três adolescentes rumo a Extrema. É lá que vamos nos refugiar das agruras de estarmos na idade de descansar, mas ainda precisando trabalhar.

Por mais trinta anos, estão dizendo! Mais trinta anos passando perrengue em cima de perrengue?! Cláudia fica acesa com a perspectiva. Vai ser o máximo! Declara. Marilena, sua grande amiga grandona que acabo de conhecer, refuta eu, hein?! Quero mais é morrer numa idade mais conveniente, digamos, antes de começar a apodrecer. Gorda desse jeito, vocês acham que vou ter de volta meu corpitxo? Já sou diabética, pressão alta, duas safenas. Só não halitose...



Quando jovem os homens abriam alas para eu passar, mas sempre davam um jeitinho de relar em mim. Quantas passadas de mão nos meus peitos e bunda levei? Lembram? Eles beliscavam a bunda da gente! Eu fingia que me ofendia, mas adorava! Só que tinha que fingir, certo? Agora eles abrem espaço. Vejo suas caras de asco de o que é que essa gordona suada está pensando. Gargalha. Daqui a pouco alguém deles vai me tascar um processo de assédio.

Faço conjecturas sobre que tipo de férias curtas eu terei. Essa mulher maluca, fedendo a cigarro, assumindo que ronca alto – será que ronca mais alto do que fala e tem voz de trombone! - junto com a Claudinha e seu quase insuportável otimismo em relação ao mundo-futuro-que-já-bate-às-portas e eu, toda cheia de dedos, em relação a manter quarto, banheiro, meu penteado e minhas coisas em ordem, que baderna vai ser? Ou que surpresas vou viver? Bem, penso, férias são férias. Agora é encarar. Será que vou conseguir descansar?

Entrego-me a Deus. Olha, deuzinho querido, meu pai adorado. Vê lá o que você aprontou para mim, hein? Pedi férias divertidas. Diferentes. Ô, deu-us? Deus me-eu? Olhalá. O senhor sabe o quanto precisei me virar para juntar algunzinho para relaxar, não sabe? Claro que sabe. O senhor vê tudo, sabe tudo, tim tim por tim tim. Ai, meu Deus, o que vai ser?! Quase me desespero.

No trajeto chacoalhante, Marilena não parava de falar. Inventou que tinha que fazer xixi. Aporrinhou tanto que o motorista fez parada imprevista. Saiu para fumar e retornou com ares de safada. Precisei decidir. Ou ficaria irritada por quatro longos dias, ou ligava o f... e o mundo que explodisse. Apertei o botão.

Foram as férias mais encantadoras que tirei nos últimos seis anos. Sorvi do otimismo de Claudinha, fazendo de conta acreditar que a vida ainda me traria muitas ótimas oportunidades. Pelos olhos dela a vida é e sempre será bela. Com os maus modos e a irreverência de Marilena retornei a minha adolescência, quando quarto bagunçado era só isso mesmo: quarto bagunçado. Um fato sem valores morais nem interpretações.

Tão logo chegamos caiu a maior tromba d’água. Quem ainda fala assim tromba d’água? Nós três. Quase da mesma idade, rimos de nós, do nosso vocabulário e das nossas manias. Mania de nos abrigarmos das chuvas e dos ventos, de sermos previsíveis e corretas. Ô, que gente chata nós nos tornamos! Lá chegando, a primeira providência: largar as malas no quarto e sair. Para onde? Exatamente, para caminhar na chuva! Chuva fria.

Senti-me livre ao enfrentar aquele aguaceiro todo – quem diz aguaceiro? –desmanchando o penteado clássico que havia feito pela manhã para viajar bem arrumada, que bonita não sei mais se consigo ficar, depois que minha neta me perguntou um dia vó, onde você estava? No cabelereiro, querida. Fazendo o que? Ah, tingindo o cabelo. Por quê? Para ficar mais bonita. E porque não ficou? Olhei para seu rostinho cândido e não percebi nenhum sarcasmo.

Andei pelos campos e retornei encharcada, toda desgrenhada, calçados enlameados, meias de nylon – usar meias de nylon numa fazenda?! Nem uma ET faria isso – mas voltei tão feliz, tão feliz como há muito tempo não me sentia. Até me atrevi a não correr para uma chuveirada quentinha. De novo, quem diz chuveirada? Virei dois cálices de cachaça da boa e permaneci na sacada da pousada, vendo o sol se por devagarinho, cedendo espaço para o macio e confortável escuro onde melhor se mostram as estrelas. Milhares delas!

Quem precisa de lareira para se secar? Ou de pantufas para esquentar os pés frios e cansados? O barulho dos grilos. O voejar dos vagalumes! Va-ga-lumes! O coaxar dos sapos, não aqueles que vivo engolindo, mas os de verdade, que vivem à beira dos rios, que portam casacas verdes, esperando pelas suas amadas tremendo de frio. Quis ser uma delas. Ter quem ainda me espere.

Falamos dos nossos amores. Das nossas paixões e dos nossos sonhos. Contamos nossos segredos. Rimos e bebemos muito. Precisei ser carregada à cama. Foi maravilhoso. Marilena com seu vozeirão e Claudinha com seu otimismo me reviveram. Que fazer terapia, que nada. Viaje com as amigas!

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

A boa-fé dos idosos

"Minha mãe não sai de cartomantes e centros que exploram sua ingenuidade. Tento explicar que ela está gastando dinheiro e esperanças fora, sem resultado. O que posso fazer?"

Berenice Andrade, Guarulhos (SP)

Cartomante
Cartomante, Vidente, boa-fé (Imagem: Pixabay)

Ana Fraiman

As pessoas precisam acreditar em alguma coisa, se não a vida fica sem sentido, umas creem em Deus, outras na ciência outras, ainda, fazem da arte sua religião ou têm um trabalho a que se dedicam com devoção. Em qualquer desses campos também podem ser exploradas.

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Votos cumpridos

Tenho 67 anos de idade. Sessenta e sete incompletos. A quem faria alguma diferença isso? Eu. Sou muito preciosista. Levo letras ao pé da letra.

Viúva
(depositphotos)

Recém-alfabetizada me vi tomada pela magia das palavras. Penso ser uma escritora não assumida, para não dizer frustrada. Tornei-me professora de português, única língua que mais ou menos domino. Em outras me arrisco.

Menina brincava de dicionário. Grande, pesado, cheio de surpresas e de novidades. Capa preta de couro bem cheiroso, bem cuidado e tratado. Pronunciava uma palavra e procurava associar seu som com uma imagem, uma sensação qualquer, a que sua musicalidade me remetia. Dificilmente acertava.

Não era acertar aquilo que me movia e, sim o gosto pelas descobertas, o rastreio das palavras, que têm a força de me conduzir para bem longe e me apresentar o mundo. Acariciava as folhas sedosas e, com o dedo indicador de minha mão direita tateava de leve as muitas páginas enquanto, de olhos fechados, buscava uma na qual parar o gesto, aleatória, para decifrar.

Por parceiros meus amigos e minhas bonecas, a quem dei aulas e mais aulas, explicando aquilo que aprendia e que, ao falar, gravava, mesmo sem saber direito do que se tratava. Palavras, minha paixão. Estudo como se encaixam em minha boca e, com o som que lhes é próprio preenchem o vazio dos meus pensares e sentires.

Presto atenção em detalhes do meu corpo todo, enquanto lido com elas, o movimento das minhas faces e o tremular dos meus olhos ao pronunciá-las. Um som ora ouvido, ora intuído. Palavras de que jamais haveria de me servir no dia a dia, mas que estão lá, para os que delas gostam ou necessitem.

Encantei-me com as aulas de declamação. Oradora de todas as turmas sentia-me feliz ao ocupar lugar de destaque nas cerimônias de encerramento dos anos escolares, agradecendo aos pais, professores e louvando a Deus pelos estudos e progressos que fazíamos. Eu não era nada. As palavras eram e com elas eu me fundia, fazendo de minha recitação forte escudo contra minha timidez.

Sempre fui tímida. Insegura. Lembro o dia em que, com menos de três anos de idade, baita laço de fita prendendo meus escorridos cabelinhos, vestidinho de organza rosa e mangas bufantes e florezinhas aplicadas, sandalinhas brancas com gordos dedinhos de fora, após saudar a todos com uma aleluia qualquer, cem pares de olhos postos em mim ali, de pé e sozinha toda iluminada no palco da escola, fiz xixi nas calças e, ato contínuo, as risadas – hoje sei, de provável simpatia - fizeram-me sentir escarnecida e humilhada neste momento foi selado meu destino.



Passei a ser a mulher da palavra e precisei somente do correr do tempo e de minha dedicação a elas para me formar professora e me esconder como escritora. Digo, portanto, que arrisco ao publicar meus textos e o faço com pseudônimo. Livros? Somente para o jardinzinho e sob pseudônimo.

Oradora de fim de ano. Representei algumas turmas, jamais nada além disso. Meu âmbito, as classes em que lecionei português e, mais tarde, história e filosofia. Somente porque gosto de palavras e de como se articulam para formar histórias e estórias para serem, transformadas e deixá-las ir.

Conservo hoje meus diários onde desenhei em palavras minha alma de menina, de mocinha, de mulher e agora, de idosa. Quase velha. Na verdade, não pretendo ficar velha, a não ser por somente três dias antes de morrer. Será tempo suficiente para que me cuidem. E que me deixem logo partir para o silêncio sem fim. Lá onde estarei em paz, sem medo de me urinar toda de medo, emoção transbordada por dizer o que sei e o que não sei.

Não me arrisco ao crivo público, a não ser o da família, para quem declamo meus versos, mesmo sabendo que a eles nada do que digo ou faço é de grande valia. Talvez, sim, de pouco interesse. Todos bem educados, até os mais jovens que me ouvem gentilmente, por vezes até pedem, fala tia, fala tia.

Contam comigo para uma leitura em voz alta nos aniversários, nas bodas de uns e outros e, com certeza, ao pé das covas, onde acabo de fazer a homilia. Da conversa familiar eu gosto. Religião? Dispenso.

Tem pouco mais de duas horas que cheguei do cemitério onde deixei duro, frio e bem enterrado, aquele que foi meu marido por cinquenta anos incompletos, como os meus meia sete de idade. Aqui estando só, faço questão de me despir das minhas vergonhas todas e declarar nua em pelo, com quem estive casada.

Conhecemo-nos por um azar do destino. Eu, quatorze, ele vinte e seis. Homem feito, barbudo e cheio das poses, trajando ternos escuros e barbas espinhadas, que me arranharam o rosto, o pescoço, os seios, a barriga e o meu entre coxas, por todos os anos em que partilhamos o leito.

Tímida, logo fui conduzida pelos seus modos de misoginia ao universo da violência contra as mulheres. Não. Mulher ainda não era. Fui estuprada pelos seus desejos insaciáveis. Assim, a seco. Lembro-me do ardor (dele) e da secura com que o recebi (apavorada) em mim, se é que receber é a palavra. Invadiu-me por meus dois buracos naquela noite e ao longo de todos os anos e quase todas as vezes em que nos deitamos para que ele se servisse.

Numa pracinha, certa noite, ele arrancava as minhas roupas com ferocidade, estourando o zíper do vestidinho que eu mais prezava, escolhido para tentar, com alguma doçura e simplicidade, fazê-lo gostar de mim. Na escuridão da noite, atrás do coreto, ele me mordia os ombros e me estapeava o rosto. Eu me debatia, me defendia, chorava, mas nada dizia. Eu, amante das palavras, não sabia que poderia dizer não e mandá-lo à puta que o pariu naquele instante.

O assalto foi detido por dois guardas que o interpelaram o que o senhor está fazendo aí com a mocinha?! O cavalheiro teje preso. Os dois, vão me acompanhar até a delegacia.

Lembro meu alívio e o meu terrível medo. Delegacia? Pai sendo chamado? Vergonha, vergonha, vergonha. E medo. O vestidinho deslizava abaixo rasgado, acariciando meu corpo machucado, expondo minhas espáduas e ameaçando minha honra. O que estaria eu fazendo ali no escuro com aquele homem que nunca me beijara sem enfiar sua língua dura em minha boca, que me esbofeteava e dizia que não se aguentava de tanto gastar de mim?! Como explicar isso? Eu não poderia. Eu é que havia provocado tudo aquilo.

Como dizer a meus pais que minha virgindade já era e que eu odiava com todas as minhas forças aquele homem por eles escolhido, o grande Bom Partido? Como encarar meus irmãos e ser exemplo para minha irmãzinha, que se espelhava em meu recato, em minhas prendas e nos meus sorrisos tímidos, como toda boa moça faria?

Olhando nos meus olhos os guardas insistiam, ele está lhe batendo, quer dar parte? Balbuciei, deixa moço, estamos somente brincando. Nada disso. É meu noivo. Brincando mesmo, tem certeza? Pode confiar na gente. Reiterei meu rendimento ao homem que se adonava de minha pessoa, não precisa, estamos de casamento marcado.

Não registraram o desespero que fazia por alterar minha voz? Minha mãe não via os meus roxos? Ninguém ouvia os choros doídos que antecipavam nossos encontros? Nem tios, nem primos, nem professores ou amigos, ninguém via nada a não ser a imagem de uma noiva triste. Eu mesma não me via nem ouvia. Fui conduzida a um psiquiatra, que passou suas mãos nojentas no meu peito, como se por distração. Foi nossa única sessão.

De meus pais fui filha obediente que daria noiva linda, com quem nunca mais precisariam se preocupar na vida. Vivi a era do silêncio, que terminou hoje, quando não tenho mais para quem me queixar, a não ser para o delegado.

Morreu fedido de feridas purulentas, barbaramente infeccionadas pelo diabetes, cortado feito salame apodrecido. Um pedaço aqui outro ali, seu corpo foi sendo mutilado, da mesma forma que minha alma. Cuidei dele, mesmo com gosto amargo de rancor antigo, testemunhando seu longo desespero tal qual o meu havia sido. Ninguém merece isso.

Por anos eu o banhei, alimentei, vesti e fiz dormir. Fechei seus olhos ontem pela última vez e hoje o enterrei, para ali permanecer calado e bem fechado, tal como sempre fomos um para o outro. Honrei a palavra empenhada no altar da igreja em que meus pais se casaram e foram felizes para sempre. Como disse, sou uma mulher de palavra.

Pronto. Votos cumpridos. Comichão gostoso, forte e quente me sobe do ventre para o peito. Sinto vida correr em minhas veias. Meu corpo todo palpita. Estou toda molhada. Urinei?! Ou de meu sexo verte o gozo? Sinceramente, não sei. Já ouvi dizer.

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  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.

Ano novo, velho Alzheimer

Ele me ajuda na cozinha. Para, no entanto, vasculhando o nada com seus olhos que se embaraçam ao menor comando que requeira reconhecimento e maior concentração. As palavras já não mais sucedem a simples e certeira ação.

Velho Alzheimer
Imagem: Pixabay

Observo e suspiro, procurando conter a acidez do Demônio do Desespero que me assalta porque ele já não pode mais. Ele já não pode muita coisa mais.

Vou reconhecendo, como se examinando pelo avesso, os passos e os gestos descoordenados que desde os primeiros dias de vida vamos treinando, até ganhar destreza e automatismos.

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