Muito a conversar

Muito a conversar. Sem sogra, sem filhos, sem nada!

Um dia você acorda e se encara: “Quem é esse velho que me olha no espelho?” Seu nariz e suas orelhas cresceram. Há um a luminosidade clara em torno de sua cabeça.

Muito a conversar. Sem sogra, sem filhos, sem nada!
Imagem: Pixabay

Não, não se trata da aura, mas dos seus — remanescentes? — cabelos. Até seus dentes parecem maiores! E por mais que você “chupe” a barriga, ela não encolhe mais do que um tantinho. E, ainda, as custas de você perder o fôlego.

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Envelhecer

Maturidade: O tempo é agora

Com certeza um dos indicativos da crise da maturescência e a sensação de premência com relação ao Tempo. Num dado momento o horizonte temporal se estreita, gerando um sentimento de “não dá mais”, “passou da hora” ou “não é mais para mim”; noutro momento, o horizonte temporal se alarga: “E agora ou nunca mais!”

Envelhecer
Imagem: Pixabay

Já suficientemente experiente para saber de seu próprio valor, mas não tão vivida, a pessoa começa a se embaralhar em seus planos e expectativas, sem saber direito o que quer da vida. Tudo e questionável. As relações familiares ficam tensas. É muita transformação. Filhos crescidos e pais envelhecidos. Não raro passam a conviver, sob o mesmo teto, quatro gerações. Nesse momento específico da vida, na passagem da maturidade para a meia idade, as perguntas mudam, face as respostas que já foram dadas.

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Pensamentos Idosos

"Minhas experiências e meus saberes. Guardei bem guardado em cada envelope lacrado, dentro de pastas dentro de gavetas dentro de armários mil. E guardei tudo tão bem guardado que agora não os acho mais. Cheguei à idade do e eu lá sei? Joguei minhas culpas fora junto com as chaves que trancafiavam meus segredos. Quem se interessaria por eles? Nem eu. Ditoso quase fim do fim."

Pensamentos Idosos
Imagem: Pixabay

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Datas Especiais

“Celebrar é sonhar um sonho de total perfeição, tão vívido, que você quase chega a tocá-lo. Ao celebrarmos uma relação, afirmamos e trabalhamos arduamente para que o sonho se torne realidade.”

Datas Especiais
Imagem: Pixabay

É por isso que os casais se sentem como que envoltos e protegidos por uma bolha mágica, separados do mundo. Deu-se um encontro. Ambas as pessoas se encontram no mesmo lugar em que estão, pelo mesmo tempo que transcende o rigor do relógio. Um tempo sem tempo, que para tudo o mais, para o amor chegar e se instalar.

Um encontro que fala de futuro e de esperança, sem se dizer palavra. O melhor som brota do silêncio. A melhor luz, do brilho do olhar. Sem tal celebração, que casal pode se encontrar? Sem celebrações, que relação pode perdurar?

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Oásis Urbano

 

O primeiro jogo da Seleção Brasileira (contra o Exeter City, 1914, no Estádio das Laranjeiras) foto do Daily Mirror

Heraldo Palmeira

O bairro sempre esteve no meu mapa desde que cheguei à cidade no início dos anos 80. Asa morena já começava a virar clássico e ratificar Zizi Possi como uma das maiorais da música.

Me faz pequena, asa morena

Me alivia a dor

Aliviando a dor que mata

Me faz ser teu amor

Foi nesse clima de arrebatamento, a música tocando o tempo todo em todo lugar, que conheci o autor Zé Caradípia, então morador do bairro e “na batalha pela música”. Um gaúcho querido que faz tempo não vejo, a quem fui levado por outro querido dos pampas, Galileu Arruda – que dividia apartamento comigo em tempos inesquecíveis de Copacabana.

Sempre tive curiosidade para saber porque se chamava Laranjeiras um dos bairros mais antigos e bucólicos do Rio de Janeiro, que se estende do Largo do Machado, sob as bênçãos da enorme matriz de Nossa Senhora da Glória, até o túnel Rebouças. A rua das Laranjeiras, que vira Cosme Velho mais adiante, é o eixo da vida tranquila da região, sua grande perimetral que se perde da vista na subida para Santa Teresa.

A origem do nome gera controvérsias. Há quem garanta que havia uma grande quantidade de laranjeiras na parte mais baixa do vale do rio Carioca. Há quem garanta que é apenas uma referência ao bairro lisboeta também chamado Laranjeiras, pela semelhança de abrigar chácaras próximas do centro da cidade.

Logo no início, uma conexão histórica junta o Mercado São José e o Parque Guinle. O mercado, que virou polo de arte, cultura e gastronomia, era a antiga senzala e celeiro de uma fazenda localizada no parque, cujo conjunto de prédios residenciais hoje disputadíssimos tem a assinatura de Lúcio Costa e serviu de piloto para as superquadras do Plano Piloto de Brasília.

O lugar por onde se estendia a bacia do rio Carioca era conhecido como Região da Carioca, que foi sendo dividida na virada entre os setecentos e os oitocentos e deu origem aos bairros do Catete, Cosme Velho e Flamengo.

Endereço nobre e predominantemente residencial da Zona Sul, Laranjeiras começou a ser ocupado no século 17 com a construção de chácaras ao redor do rio Carioca – despenca da Floresta da Tijuca (nos arredores do Corcovado) na direção do mar do Flamengo –, que já abastecia a cidade de água doce desde os primórdios do período colonial, pois seu manancial oferecia “a melhor água da cidade”.

Hoje poluído e escondido em canal submerso sob o mar de asfalto, só pode ser visto na nascente e num pequeno trecho a céu aberto no Largo do Boticário, empreendimento imobiliário erguido pelo farmacêutico Joaquim Sotto em 1838, com sete casas para alugar, que virou relíquia arquitetônica e cultural com seu casario que parece parado no tempo.

A chegada da fábrica de tecidos Aliança à rua General Glicério, em 1880, provocou enorme transformação no bairro, fazendo surgir suas primeiras vilas operárias, grandes comerciantes e trazendo a primeira linha de bondes.

A fundação do Fluminense deu um retoque de modernidade, já que o futebol era grande novidade em 1902. Talvez pelo requinte já observado no bairro e pelos homens importantes envolvidos na sua criação, o clube terminou identificado com a elite.

A partir do atual Palácio Guanabara, o bairro virou polo importante do poder político desde a monarquia (serviu de residência para a princesa Isabel e Getúlio Vargas) e, quando o Rio virou capital federal da República, vieram embaixadas e outros órgãos da máquina administrativa. As lendárias palmeiras imperiais da rua Paissandu continuam uma espécie de portal nobre até o mar.

Laranjeiras se confunde e se mistura sem briga com o Cosme Velho, rota de turistas do mundo todo que enchem a estação do trenzinho do Corcovado para subir até o Cristo Redentor.

Ao longo do tempo – junto com o vizinho – foi endereço de Afonso Reidy, Alceu Amoroso Lima, Austregésilo de Athayde, Cândido Portinari, Cecília Meirelles, Ernesto Nazareth, Euclides da Cunha, Heitor Villa-Lobos, Jorge Mautner, Lima Barreto, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Noel Nutels, Oscar Niemeyer, Régis Bittencourt, Roberto Marinho, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta)...

Também ficou marcado pela moradora Cássia Eller e seu All Star azul, como se o bairro fosse cúmplice de uma boa conversa, um grande amor, de música e poesia.

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você

O sal viria doce para os novos lábios

O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário

Estranho é gostar tanto do seu All Star azul

Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras

Satisfeito sorri quando chego ali

E entro no elevador

Aperto o 12 que é o seu andar

Não vejo a hora de te encontrar

E continuar aquela conversa

Que não terminamos ontem

Ficou pra hoje

A rua das Laranjeiras quase nunca fica livre do tráfego intenso de carros e ônibus, mas consegue manter a fleuma, um ar de que não há pressa, um espaço para continuar a conversa que não terminou ontem. O ambiente muito arborizado parece reforçar a impressão de que é bom viver ali. E viver ali significa também entender cenas e personagens do cotidiano.

Rua das Laranjeiras (fotografia Heraldo Palmeira)

Diante da naturalidade daquela conquista, não tive dúvida de que o encantamento do “jovem casal” era absoluto e mútuo, havia neles uma espécie de inconsciente plena consciência do que estavam vivendo.Quase hora do almoço, duas mulheres conversavam alegremente e pararam na faixa de pedestres diante do meu prédio. Aguardamos o sinal para atravessar a rua. Cada uma trazia sua criança, saídas da escola ali adiante, um menino e uma menina na faixa dos quatro anos. Os dois de mãozinhas dadas, absolutamente encantados; as mães curtindo aquele arremedo de namoro. Assim que pararam naquela espera, o menino começou a fazer carinho no rostinho dela e cobriu de beijinhos sua face.

Pode parecer estranho e exagerado, mas os adultos infantis que temos à solta no século 21 andam antecipando a infância das suas crianças, parece que reduzida para o tempo no útero materno.

Mas infância é infância e bastou o espetáculo de saguis andando nos fios da iluminação pública para os miúdos se entregarem a novo enlevo, excitados pela proximidade dos bichos, em grande farra pouco acima das nossas cabeças atravessando a rua por aquela via aérea particular.

Mas o sinal abriu para nós e o menino pegou a mão da sua amada e o cortejo do amor seguiu em busca do outro lado da calçada. Aqueles dois faziam suas primeiras travessias.

Saguis em rota alternativa (fotografia Heraldo Palmeira)

Num recorte da calçada a poucos metros do colégio, a imagem é definitiva, chama atenção. A mulher negra, miúda, em roupas sempre multicoloridas já foi incorporada ao cenário como ícone urbano.

Há sempre alguém conversando ao redor. Crianças, jovens, idosos, cerca-lourenços... Ela está no mesmo ponto todos os dias, no trabalho diário de flanelinha regular, profissional, com aparato oficial – aquele colete que teoricamente significa registro na prefeitura e os cupons que garantem estacionamento no amontoado sem nexo de carros como é comum às ruas do Rio.

Perguntar a idade, me disse o porteiro do prédio, pode ser motivo de crime. O cabelo acaju em calculado Black Power, interessantemente adornado por uma tiara de pano confere ar descolado, realça dois trunfos lindos: olhos em azul quase cinza e um sorriso de demolir qualquer brutamontes! Eu, mesmo forasteiro, ganhei o meu no primeiro contato, só porque ia passando “na área”.

– Tudo bem?

A dona do pedaço (fotografia Heraldo Palmeira)

Sorri encantado. Ainda mais quando vi uma Bic azul – paixão que professo – presa na tiara. Laranjeiras tem esse ar de grande família, onde parece que todos conhecem todos, a vida anda mais devagar, melhor.

Todas as ruas vicinais são simpáticas, parecem velhas conhecidas mesmo que nunca se tenha entrado nelas. A Pires de Almeida é objeto de desejo porque não tem saída, o sossego impera e ficou famosa como cenário de uma antiga novela de televisão.

Na verdade, a rua foi criada para abrigar o conjunto de prédios no estilo art déco, originalmente denominado Jardim Sul América, construído nos anos 20 para acomodar os funcionários da Cia. de Seguros Sul América. A proximidade da rua das Laranjeiras e o número de quartos diferenciavam seus ocupantes, de diretores a serventes. O conjunto tem hoje uma parte tombada e desde sempre a praça Múcio Leitão, cercada de amendoeiras centenárias, é ponto de encontro dos moradores e de brincadeiras das crianças do lugar.

Rua Pires de Almeida (fotografia Heraldo Palmeira)

Um pouco mais adiante, a rua General Glicério desemboca num bulevar duplicado de grande beleza, que suportaria duas pistas para carros, mas deu lugar a jardins maiores nas calçadas de prédios classudos, apartamentos enormes, onde dá vontade de morar já na primeira visita.

O bulevar abriga sua feira semanal, com música da boa, desfiles de blocos durante o Carnaval e comércio de bom porte que convive em perfeita harmonia com a proposta residencial reinante desde os tempos em que os leiteiros acordavam os moradores oferecendo seu produto bem de manhãzinha.

Rua General Glicério (fotografia Heraldo Palmeira)

Que ninguém se iluda: em toda a extensão do bairro, Cosme Velho irmanado, há muitas outras ruas assim, anônimas, recantos macios e silenciosos, endereço da natureza onde a vida parece passar mais devagar e com mais conforto.

Logo adiante está a famosa rua Alice, uma das subidas para santa Teresa, sede da lendária Casa Rosa que figura no imaginário carioca há várias gerações e terminou tombada como patrimônio cultural imaterial do Estado.

O cabaré do início do século 20 virou prostíbulo de luxo e atingiu o apogeu nos anos 50, ponto frequente de grandes empresários, políticos e artistas – preferiam entrar e sair pelo portão de emergência escondido entre o segundo e terceiro andares do casarão.

No início dos anos 80, já cambaleante, abrigou festas temáticas que espalhavam jovens pelo puteiro sem qualquer obrigação de intercâmbios – ainda participei de algumas, era uma grande curtição, juntava muitos artistas jovens para ouvir música, beber, fumar, zoar e até namorar. Ressurgiu como centro cultural e foi assim até 2004, entre noites de samba e de rock, quando os vizinhos deram um basta incomodados pela barulheira infernal e a desordem reinante nas festas e noitadas.

Preferi deixar subir a ladeira apenas minhas saudades, para não ver o casarão histórico mais uma vez abandonado naquele rosa cheio de manchas, à espera de uma reforma que lhe resgate a dignidade e estabeleça um novo relacionamento com a comunidade.

Fiquei entregue aos sabores do Sonho Lindo, que honra as tradições da culinária carioca dos botecos – outro patrimônio imaterial da grande cidade que vive no imaginário popular nacional.

Sabores no sopé da rua Alice (fotografia Heraldo Palmeira)

Os ares amenos do outono eram animadores para caminhadas diárias naqueles dias felizes em Laranjeiras. Tempo para estabelecer amizade de infância com o português da padaria, a japonesa de charme discreto do restaurante da galeria, o homem polido da lavanderia, a mocinha da lotérica, a caixa do supermercado, o porteiro do colégio, a senhorinha da farmácia, o rapaz do café, o garçom da pizzaria, a flanelinha descolada, a moça linda do cachorrinho malhado, o taxista da praça, a secretária da paróquia, a mulher deslumbrante fazendo artesanato na calçada do banco, o garoto flamenguista da banca de jornal, o balconista do bistrô...Os ares amenos do outono garantiam manhãs arejadas diante dos janelões da minha vista, com a mata atlântica intocada, pássaros, macacos e saguis em farra entre galhos.

Ah!, meu Deus

Eu sei, eu sei

Que a vida devia ser

Bem melhor e será

Mas isso não impede

Que eu repita

É bonita, é bonita e é bonita

(*) Trechos de Asa Morena (Zé Caradípia) / All Star (Nando Reis) / O que é, o que é (Gonzaguinha).

Fonte: Blog Conversas do Mano

  • Psicóloga formada pela UNIP, Mestre em Psicologia Social pela USP e doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP.
  • Pesquisadora pelo NEF - Núcleo de Estudos do Futuro, com foco no Ecossociodesenvolvimento | Cátedra Ignacy Sachs, alinhada ao United Nations Millennium Project.
  • Coaching de Carreira e Preparo para uma Aposentadoria Sustentável.